O Tudo e o Nada

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O Tudo e o Nada

“Em todas as dimensões há um universo.” Foi sempre o que o Tudo e o Nada ouviram dizer. No entanto, sempre os avisaram: “Nunca anseies pelo vazio que é o Universo”. Contudo não era vazio que o Tudo e o Nada viam quando olhavam para todos os Universos. Viam algo que não sabiam descrever, que não reconheciam na sua dimensão. “Luz” era o nome que lhe davam. O Tudo e o Nada não sabiam o que era a luz: havia quem dissesse que a luz trazia embalados nos seus raios o amor, o calor e a vida. Porém, os velhos e sábios Universos persistiam e não paravam de dizer: “Não procures amor na luz, pois só encontrarás dor. Não procures calor na luz, pois só encontrarás frio. Não procures vida na luz, pois só sentirás a morte a percorrer o teu espírito”. Mesmo com todos esses avisos, o Tudo e o Nada não entendiam porque é que os velhos e sábios Universos falavam assim de uma coisa que, na realidade, era o que eles eram. O que é certo é que a tentação ia crescendo e, quando souberam da existência de algo chamado tempo, que só se encontrava nos Universos, ficaram muito perturbados e excitados. Estavam saturados da inexistência do tempo. Segundo o que ouviram, o tempo era a ordem pela qual os eventos se seguiam, mas na sua dimensão não havia isso: todos os acontecimentos se repetiam quantas vezes fossem precisas e podiam ser longuíssimos ou curtíssimos. Na verdade, a única coisa que os mantinha naquela primitiva condição era a presença um do outro. O Tudo não imaginava a sua vida sem o Nada, assim como o Nada não imaginava a sua vida sem o Tudo. Não era amor, nem paixão: era dependência. A relação do Tudo e do Nada era uma simbiose perfeita onde reinava a felicidade, apenas com o senão de sentirem a curiosidade de existirem na forma de Universo. Foi então, no momento em que descobriram o que era o tempo, que se sentiram realmente tentados a seguir em frente. Era impossível imaginar a alegria de desfrutarem juntos de todas as maravilhas que a condição de Universo oferecia, com o luxo de todos os bons momentos ficarem gravados eternamente no tempo.
Chegou assim a altura em que o Tudo e o Nada sentiram a necessidade de ignorarem todos os avisos e lançarem-se na aventura. Sabiam o que fazer, mas tinham medo de saltar do abismo, o que era natural. Foi então que, finalmente, concordaram em evoluir das condições primárias de tudo e de nada para a condição fantástica de Universo. Apenas tinham que se unir. Nessa altura fizeram algo que nunca durante toda a eternidade tinham feito: tocaram-se. Os sábios Universos chamavam-lhe “o beijo primordial” – o Tudo e o Nada não lhe chamaram nada. No momento em que as suas existências se tornaram uma só, sentiram a imensidão da felicidade atingir o pique, descobriram a cura para a sua maior necessidade: a necessidade de um ser o outro, a de serem um só. Sentir o que o outro sente, ou ser o outro, foi o início dos inícios de todas as maravilhas, de toda a magnificência e de todo o esplendor de se ser Universo. Quando a fugaz explosão de luz cessou, o Tudo vislumbrou pela primeira vez a imponência que se estendia à sua frente. Viu, sentiu e acariciou a sensível e delicada luz, que o enchia de amor, calor e vida. Da luz veio também o bem, a alegria, a boa vontade e o positivismo. Tudo era o melhor possível. Talvez eles não entendessem que a perfeição é inatingível e que quem ousa chegar até ela paga um preço muito alto.
Quando a poeira baixou e o Tudo se acalmou, começou à procura do Nada. Procurou, procurou, mas não o encontrou. Começou a assustar-se, convenceu-se de que o Nada andaria por aí a apreciar a condição que tinham atingido, mas depressa se apercebeu de que o Nada não estava em lugar algum, o nada simplesmente deixara de existir. Foi nesse fatídico momento de clarificação que o Tudo se apercebeu do quão vazio era o Universo. Foi aí que da luz emergiu a sombra e com ela fez nascer do amor o ódio, do calor o frio, da vida a morte. Do bem nasceu o mal, da alegria nasceu a tristeza e do positivismo o negativismo, assim como do dia advém a noite. Agora entendia, o Universo não é mais do que a manifestação do tudo de infinitas formas, o Universo é o alargamento do tudo em toda a sua escala e compreensão.Assim, no Universo não há lugar para o nada. A formação de um Universo aniquila a existência de um dos seus criadores, aniquila a existência do nada.

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A percepção da verdade penetrou o seu espírito como um raio de luz penetra o seu corpo, sabia agora o porquê de todas as descrições horripilantes que os outros sábios Universos faziam sobre si próprios. Também eles tinham perdido o seu Nada. A saudade da feliz ignorância em que vivia antes de se tornar Universo apertou o seu pensamento de uma forma tão triste e fatalista que o Tudo, agora na forma de Universo, encarou por fim a mais dura, dolorosa, penosa e insuportável realidade: devido a um desejo caprichoso, fruto da mera curiosidade, perdera o que para ele era mais importante do que qualquer outra coisa. Perdera aquilo que lhe alimentava a vida, perdera o seu oposto, na verdade perdera aquilo o que o distinguia e o definia como Tudo. Não havia nada que pudesse fazer, a não ser lamentar-se. E para aumentar a sua dor, o Tudo, agora Universo, teve pela primeira vez a percepção do tempo: via as estrelas a nascerem e a morrerem, planetas a formarem-se, continentes a juntarem-se e a afastarem-se, mares a crescerem e a evaporarem-se, plantas a brotarem e a murcharem, animais a comerem e a serem comidos, homens, pensamentos e civilizações a florescerem, amadurecerem e caírem. O tempo era um manto que lhe percorria o corpo sem nunca voltar para trás e sem nunca chegar ao fim. Cada toque suave seu era uma facada sanguinária, mas, infelizmente, não fatal, pois, quanto mais caía o manto, mais a sua saudade aumentava e mais a esperança de que no fim encontraria o descanso diminuía. O tempo era o eterno filme da magnificência da vida extraída da sua infindável infelicidade e ver esse filme sem pestanejar era a maior das torturas.
Só lhe restava uma hipótese, era a única maneira de se sepultar numa ilusória, mas fiel imagem do Nada. Ele tinha que se expandir, alargar-se, alargar-se e alargar-se até o horizonte se apagar. Expandir-se-ia até que as estrelas das galáxias rolassem para longe umas das outras, até que o fluxo de vida cessasse, até que as isoladas estrelas se evaporassem e dispersassem, expandir-se-ia até que deixasse de haver poeira, mas grãos de areia, alargar-se-ia até que o tudo se limitasse a partículas isoladas, até que essas partículas se quebrassem e assim até que a luz, por fim, se apagasse. Expandir-se até que toda a sua existência se confinasse ao vazio, era a única forma de se sentir perto do seu perdido Nada. Sendo assim, o Universo desenrola-se eternamente para que num longínquo e quase inatingível futuro tudo fique tão apartado de tudo, de forma a que o vazio impere implacável e silenciosamente, fazendo assim com que ele possa sentir a ténue e desejada, mas falsa presença do Nada e repousar por fim num sono que ele sabe ser enganador mas, ao mesmo tempo, reconfortante. Porém, antes disso terá que percorrer a existência, que no fundo é a irónica beleza do Universo, pois é a mais desejada e também a mais horrenda de todas as condições.

Mário Salgueiro

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